
Muito antes do ciclo do ouro impulsionar a economia mineira, antes das indústrias transformarem Montes Claros em um polo regional e antes mesmo das rodovias aproximarem o Norte de Minas dos grandes centros, quem abriu caminhos por esta terra foi o gado.
Foi a pecuária extensiva que ocupou o território, formou fazendas, criou rotas comerciais e deu origem aos primeiros núcleos populacionais. O campo moldou a cultura, a economia e a identidade de uma região que, até hoje, mantém uma relação inseparável entre a cidade e a vida rural.
Para compreender essa trajetória é preciso voltar ao período da colonização.
O pesquisador e professor do curso de História da Unimontes, Laurindo Makie Pereira, explica que o território era originalmente ocupado por povos indígenas e que a ocupação portuguesa ocorreu a partir de duas atividades principais.
“Antes do homem branco e da pecuária, esse território era habitado pelos povos indígenas. A colonização ocorreu principalmente por meio da agricultura de subsistência e da pecuária extensiva. A criação de gado exigia pouca infraestrutura, ocupava grandes áreas e acabou sendo determinante para o povoamento do sertão norte-mineiro”, explica.
Ao contrário das regiões mineradoras, cuja economia dependia da descoberta do ouro, o Norte de Minas construiu sua riqueza sobre uma atividade permanente: produzir alimento.
Foi dessa vocação que surgiram fazendas, estradas, comércio, cidades e uma cultura profundamente ligada ao campo.
O AGRO TAMBÉM É CONHECIMENTO
Se antes o crescimento acontecia pela força do trabalho, hoje ele é impulsionado pela ciência.
Universidades, centros de pesquisa e profissionais especializados transformaram a pecuária em uma atividade cada vez mais eficiente, sustentável e competitiva.
O professor do curso de Zootecnia da UFMG, Thiago Braz, destaca que a produção animal moderna depende diretamente do conhecimento científico.
“O curso de Zootecnia prepara profissionais para atuar em toda a cadeia produtiva, desde a produção dos alimentos utilizados na nutrição animal até o manejo, genética, reprodução e produção de carne, leite e ovos. O zootecnista leva inovação, assistência técnica e desenvolvimento para o campo.”
Segundo ele, a universidade também devolve à sociedade tecnologias desenvolvidas em pesquisas voltadas à realidade do semiárido.
“As pesquisas envolvem produção de alimentos, recuperação ambiental, utilização de espécies nativas e fortalecimento da pecuária familiar. Todo esse conhecimento retorna ao produtor na forma de tecnologia e melhoria da produtividade.”
PRODUZIR NO SEMIÁRIDO EXIGE GENÉTICA
Produzir carne de qualidade em uma região marcada por longos períodos de estiagem exige muito mais do que tradição.
Exige seleção genética.
O diretor financeiro da Sociedade Rural de Montes Claros e selecionador de Nelore, Osvaldo Miranda Júnior, explica que o grande diferencial do rebanho produzido no Norte de Minas está justamente na adaptação ao clima.
“O animal criado aqui já nasceu adaptado às nossas condições. Isso significa maior resistência, melhor desempenho e maior produtividade tanto nas regiões mais secas quanto em locais de clima mais favorável.”
Esse avanço é resultado de décadas de melhoramento genético.
“O acasalamento dirigido e a utilização de touros avaliados permitem selecionar animais com maior rendimento de carcaça, melhor acabamento e maior produção de carne. Hoje a tecnologia está presente em cada decisão dentro da fazenda.”
Mas genética sozinha não basta.
No semiárido, planejamento é tão importante quanto chuva.
“O produtor sabe exatamente quando termina o período chuvoso e já inicia a suplementação alimentar dos animais com sal proteinado. Isso garante que o rebanho atravesse os meses de seca mantendo desempenho e produtividade.”
A EXPOMONTES: ONDE A HISTÓRIA ENCONTRA O FUTURO
Todo esse conhecimento, tecnologia e evolução encontram, todos os anos, um mesmo endereço.
A Expomontes.
Mais do que uma feira agropecuária, ela representa o encontro entre tradição, inovação e oportunidades.
É onde produtores apresentam genética, empresas lançam tecnologias, pesquisadores compartilham conhecimento e milhares de negócios começam.
Para Osvaldo Miranda Júnior, a Expomontes é uma grande vitrine do agronegócio.
“Quem participa mostra seus produtos, fortalece sua marca, conquista clientes e volta nos anos seguintes porque sabe que a feira gera resultados.”
Nos leilões, genética se transforma em investimento.
O criador Osvaldo Landes Tolentino explica que o mercado busca animais cada vez mais eficientes.
“Os compradores procuram animais com boa morfologia, excelente rendimento de carcaça e qualidade genética. Essas características agregam valor ao rebanho.”
Segundo ele, a valorização da arroba e da genética fez os negócios crescerem significativamente.
“Tivemos aumento de aproximadamente 18% no faturamento e a expectativa é manter esse crescimento.”
Mas talvez o maior patrimônio da Expomontes não esteja apenas nos negócios fechados durante os dez dias de evento.
“O principal resultado é o relacionamento. É aqui que reencontramos clientes, fazemos novos contatos e iniciamos negócios que continuam durante todo o ano”, conclui Landes.
MUITO ANTES DO OURO, O NORTE DE MINAS JÁ PRODUZIA RIQUEZA
A história mostra que o desenvolvimento do Norte de Minas não começou nas minas de ouro.
Começou no campo.
Foi a pecuária que abriu caminhos, ocupou territórios, movimentou a economia e construiu a identidade de uma região inteira.
Hoje, séculos depois, a tradição continua viva, agora impulsionada pela ciência, pela genética, pela inovação e pelos grandes encontros proporcionados pela Expomontes.
Porque, antes do ouro, veio o agro. E continua sendo ele um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do Norte de Minas.

