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Medicina preventiva: quando cuidar antes da doença se torna estratégia de negócio

Medicina preventiva: quando cuidar antes da doença se torna estratégia de negócio

Segundo o ditado popular, prevenir é melhor que remediar. Durante décadas, no entanto, a saúde suplementar brasileira foi organizada em torno de uma lógica bastante diferente: o beneficiário procura o plano quando precisa de uma consulta, um exame, um tratamento ou uma internação, um modelo que responde à doença, mas nem sempre consegue antecipá-la. 

Esse movimento, porém, começa a dividir espaço com uma outra visão. Cuidar da saúde antes do aparecimento de um problema pode ser mais eficiente para o paciente, mais racional para as empresas e mais sustentável para o próprio sistema.

Não seria sensato afirmar que a medicina preventiva seja uma novidade no Brasil. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estimula iniciativas de promoção da saúde e prevenção de riscos há anos. O Promoprev, por exemplo, consolidou-se como uma das estratégias para estimular as operadoras a desenvolver programas voltados à prevenção e à melhoria da qualidade de vida. Dados reunidos pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostram que, entre 2014 e 2019, o número de ações inscritas no programa cresceu 65,6%, de 1,1 mil para 1,9 mil. No mesmo período, o número de beneficiários participantes chegou a 2,3 milhões, 50% acima do registrado cinco anos antes.

O dado mais interessante, entretanto, está na mudança de perspectiva. A prevenção começa a deixar de ser apenas um programa complementar para ocupar espaço na própria estratégia assistencial das operadoras. 

Há uma razão econômica para essa transformação. Quanto mais cedo um fator de risco é identificado, maior tende a ser a possibilidade de intervenção antes que ele evolua para uma condição de maior complexidade. Para o paciente, isso pode significar mais qualidade de vida. Para a empresa, menos afastamentos e maior produtividade. Para a operadora, uma oportunidade de atuar sobre a saúde de sua carteira em vez de simplesmente administrar o custo da doença.

Mas existe um contraponto importante: prevenção não é sinônimo de economia automática. Construir um modelo verdadeiramente preventivo exige investimento em tecnologia, atenção primária, análise de dados, equipes multidisciplinares e, principalmente, capacidade de acompanhar o paciente ao longo do tempo. Também exige mudar comportamentos. Não basta disponibilizar uma plataforma, enviar lembretes ou oferecer uma lista de exames. É preciso fazer com que o beneficiário compreenda seu papel no cuidado e encontre caminhos simples para aderir às recomendações.

Esse talvez seja o principal desafio da próxima etapa da saúde suplementar brasileira. O mercado não precisa apenas de mais programas de prevenção, mas de modelos capazes de provar sua eficiência, mesmo que esta resposta não seja simples nem barata.

Liliane Freitas

Sócia-fundadora da Aurora Saúde